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Por Luiz Fernando Mello Raposo   
25 de maio de 2007
Capitalismo 
Primeiro, é importante conceituar o que entendemos por Capitalismo. Como assinalamos em outros artigos, publicados neste mesmo Portal (1) , consideramos Capitalismo como uma etapa evolutiva da cultura ocidental, compreendida como o resultado de um pragmatismo de raizes aristotélicas, associado a uma visão de mundo judaico-cristã. Reduzi-lo à dimensão
econômica implicaria distorcer um fenômeno social complexo.
Todavia, com fundamento em um esquema interpretativo (2) e em conceitos emprestados à antropologia estrutural, abstrairemos a parte (o econômico) do todo (o social), para compreender a esfera da economia como modelo embutido no modelo social capitalista, para, depois, avaliá-lo como paradigma de solução para o desenvolvimento de qualquer sociedade que aspire evoluir e progredir. 
Modelo e supra-estrutura social 
Segundo Lévi-Strauss, as “... relações sociais são a matéria-prima empregada para a construção de modelos que tornam manifesta a própria estrutura social.” (3) Modelo seria, então, a representação de fenômenos sociais e mentais de que se serviria o antropólogo para desvelar a estrutura e compreender o real implícito, subjacente ao modelo. 
Nas sociedades mais complexas, a diversidade e a dinâmica dificultam a análise estrutural por conterem modelos plenos de racionalismo. Mas é razoável inferirmos que a estrutura social dos povos primitivos corresponda à infra-estrutura das sociedades contemporâneas e que a supra-estrutura reúna modelos conforme a sua complexidade. Tais modelos expressariam a compreensão coletiva da subjetividade dos fenômenos sociais (modelo cultural), o conhecimento da realidade objetiva (modelo econômico), e o sentido da pulsão social (modelo político)
Se, como sugere o etnólogo Franz Boas (4) , o sujeito da cultura / infra-estrutura social é o inconsciente coletivo, logo será ele o arquiteto da supra-estrutura social. Este papel será exercido de modo ostensivo, como nos tabus, mitos e signos no modelo cultural, ou de forma difusa, considerando-se a experiência social abstraída aos modelos econômico (e que se reflete nos objetos da atenção, do interesse, e da experimentação) e político (que se revela no conteúdo das atividades que predispõem atitudes, crenças, e aspirações).
A percepção de Boas, corroborada por Lévi-Strauss (4) , nos conduz a três outras inferências:
que os modelos surgem e se modificam no tempo como arranjo decantado
 pela tensão entre forma e fundo sociais;  
que essa tensão, mediada pelo modelo cultural, se cristaliza no modelo
 econômico, e busca a síntese no modelo político e, assim, enquanto o modelo cultural seria a forma como a consciência coletiva intui o necessário social, o modelo econômico expressaria a concretude do fenômeno, o modo como a coletividade materializa o conhecimento, restando ao modelo político proferir o discurso revelador do passado coletivo e do sentido de uma destinação comum; 
que o movimento da supra-estrutura (de caráter progressivo) depende de
 sua adaptabilidade à dinâmica da infra-estrutura (de natureza cumulativa), vale dizer, do ajuste intra e inter modelos ao processo da evolução cultural. 
Capitalismo como modelo econômico
Nos modelos econômicos são as relações de produção que dão corpo às manifestações culturais. Apesar da diversidade dessas relações, tais modelos guardam entre si características universais: são contingentes, sofrem os influxos do modelo cultural, influenciam o político, e dispõem de sujeito próprio (o trabalho), mediante o qual a sociedade realiza a acumulação.
De um lado, é pelo trabalho que o homem modifica a natureza e é por ela modificado e dessa práxis surge a técnica, que eleva a produtividade e cria tempo para a interação, a reflexão, e o conhecimento. De outro, é o modo como a riqueza social é usufruída que mais expressa a influência cultural sobre o modelo econômico. Por fim, é da economia que provém a sobrevida do modelo político, quando apartado da esfera cultural.
Como modelo econômico, Capitalismo é acumulação de capital. Essa acumulação é estratégica ao modelo e ocorre pela diferença entre os resultados da produção de bens, serviços, e informações, e a remuneração dos agentes econômicos.
No âmbito dos subsistemas econômicos ela se particulariza: acumulação de capital por unidade de trabalho (Capitalismo Industrial); acumulação de capital pela subtração das exigibilidades ao montante financeiro apurado no giro de estoques (Capitalismo Comercial); acumulação de capital por unidade de capital (Capitalismo Financeiro). Se a acumulação varia segundo os subsistemas da economia capitalista, é porque tanto são específicas as respectivas táticas como os elementos sobre os quais operam para a realização de propósitos intermediários.
Os efeitos da livre concorrência sobre o modelo
No subsistema industrial, a acumulação se sustenta no tripé invenção-inovação-produtividade. Articulando a invenção com a inovação, as indústrias buscam elevar a produtividade do trabalho para exponencializar a acumulação. Sem a invenção – a descoberta de novos bens, processos, ou métodos de produção – torna-se impraticável a inovação (5) , o meio pelo qual os empresários dão utilidade à invenção. Já no subsistema comercial, a acumulação depende da velocidade do giro e da reposição dos estoques, função da utilidade e do preço dos bens ofertados, enquanto no subsistema financeiro o capital se reproduz pela conjugação da rentabilidade com a segurança, para dotar o processo acumulativo de liquidez (o objetivo tático do Capitalismo Financeiro).
Considerando os objetivos dos subsistemas, parece-nos clara a essencialidade e a articulação dos fatores que animam a economia capitalista: a produtividade do trabalho (como forma econômica), o consumo de massa (como fundo), a disponibilidade da riqueza (como o sentido do modelo). Eles imprimem coerência, coesão, e dinâmica ao modelo social, enquanto não exacerbados pela livre concorrência.
Uma vez intensificada a ação sobre os elementos de apoio à produtividade (invenção e inovação) e ao consumo (utilidade e preço), o subsistema industrial se torna obsessivo e o comercial, histérico.
De um lado, uma superprodução crescente de bens multi-utilitários e com “inteligência” embutida. De outro, estoques sujeitos a alta rotatividade. No meio, consumidores passivos que deverão absorver a histeria do subsistema comercial e reunir aptidões cognitivas, hábitos, e interesses diferenciados, para usufruir de vasta gama de produtos de rápida obsolescência. 
Seria de se esperar que esse processo, levado às últimas conseqüências, reconduzisse o modelo a um ritmo de produtividade que restaurasse o equilíbrio. Isso seria viável se a capacidade científica e o espírito de inovação empresarial fôssem postos a serviço de uma demanda maior (não apenas econômica), o que exigiria uma mudança de mentalidade dos empresários e a desalienação do consumidor.
Mas a proposta extrapola os domínios do modelo econômico, pois exigiria do modelo político profunda revisão nas finalidades do sistema educacional, que esbarraria em valores cristalizados no modelo cultural. Na prática, a redução da produtividade diminui a competitividade do subsistema industrial, transferindo a acumulação ao subsistema financeiro, que, desprovido de ser, segue os próprios desígnios lógicos.
A importância que o Capitalismo Financeiro dedica à liquidez acentua a aqueda da produtividade pela redução ainda maior dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Além de subtrair da economia a inteligência vinculada à geração de conhecimento (gradual expropriação do papel social da classe média), estimula a especulação tanto quanto a inflação (a moeda perde o lastro da produtividade), fomenta a concentração de renda nos círculos detentores de capital, e leva a economia à estagflação (estagnação com inflação).
A retomada da direção do modelo econômico pelo subsistema industrial implicaria o reinício de um processo circular, cuja quebra pressupõe a estabilidade de um Projeto Social que privilegie a educação e a cultura como meios emancipadores de uma individualidade refém do solipsismo utilitarista. Mas esse intento é dificultado ao modelo político por ser caudatário do modelo econômico e refletir uma cultura que tem no individualismo o seu fundamento.
 Impasse e perspectivas 
Esse individualismo encarna uma visão de mundo que resumiríamos como a ética mosaica (o puritanismo) conjugada à crença das possibilidades do corpo (o trabalho) para transceder a finitude humana e realizar um “paraíso terreno”, o espaço-tempo da felicidade desejada, concreta, e possível. Daí a recorrência do modelo político à radicalidade puritana (quando a crise se manifesta na superfície cultural), às regras do liberalismo clássico (quando a crise se instala no modelo econômico), ou ao exercício de papel de gendarme internacional (nos períodos de crença na destinação histórica do Capitalismo ou quando este sofre de profunda crise de identidade).
Próximas na origem (como orientação difusa, mas básica ao modelo cultural capitalista), cultura e economia se imbricaram de tal modo que ora nos referimos ao Capitalismo como sociedade de bem-estar, ora como sociedade de consumo, ora como sociedade de massa. Reduzida a supra-estrutura capitalista a praticamente dois modelos (o econômico e o político), as tensões sociais serão exacerbadas pelo primeiro e reprimidas por um modelo político surdo às contrações da infra-estrutura social (a esfera cultural).
Não favorecendo o desenvolvimento coletivo (evolução cultural e progressão material), o Capitalismo estimula uma Teoria da Sociedade que fundamente alhures um modelo social sucessor. Que ismo seria esse? SolidarismoCulturalismo? Ou, simplesmente, Cultura Nova? (2)
Referências Bibliográficas e Notas Complementares:
Vide “Capitalismo e Modernidade: Reflexões”, clicando aqui
SAMPAIO, Luiz Sérgio Coelho de. Noções elementares de lógica – tomo I. Rio de Janeiro, RJ. Instituto Cultura Nova, 1988. 
LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural, pg. 316. Quarta Edição. Rio de Janeiro, RJ. Tempo Brasileiro, 1991, 456 p.
Ibid, pg. 35.
Clique aqui para acesso a um artigo que aponta as principais diferenças entre  “invenção” e “inovação”.
Nota 
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Última Atualização ( 28 de setembro de 2007 )
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